Nesses dias, voltando para o celular após um jogo de tênis (atividade super prazerosa para mim) tive um susto, daqueles de amolecer o joelho: quatro chamadas não atendidas da escola da Letícia. Jogo tênis às oito da manhã, após deixá-la na escola e antes de ir trabalhar. Uma horinha, mas sessenta minutos onde tudo pode acontecer. Sem respirar, retornei a chamada:
― Alô-aqui-é-a-Fernanda-mãe-da-Letícia! ― disparei num fôlego só.
― Ah... Te liguei porque esqueceu o lanche coletivo. Era pastel de forno. Agora a gente já comprou um bolo de laranja... ― respondeu a voz mansa da secretária.
― Ah, que bom. Depois a gente acerta, então.
― É.
Esse foi o breve diálogo, de onde despenquei para a culpa. Falha minha, sei. Respiro e converso comigo:
― Essa foi. Como posso fazer melhor?
Passa horas, passa dias. Outras situações no pensamento. Já não mais com o peso da culpa quando estou trabalhando nos assuntos:
― Segunda às 22h30 quando chego é impossível (o evento ocorre as terças). Fazendo no domingo fica velho.
— Pedir isso para minha mãe extrapola meus limites de crédito e débito.
Outros tempos, outros assuntos.
— Isso não completa a equação em ter uma funcionária diariamente.
― Já sei! No próximo lanche coletivo da Letícia encomendo numa padaria e peço a entrega lá na escola mesmo. Talvez seja caro...
— Se estiver sem dinheiro, proponho trocar o lanche por algo que possa fazer no domingo.
Feliz.
Desde a primeira escola/creche em que a Lê esteve, eu questiono sobre a importância dessas iniciativas que incluem a participação dos pais em atividades escolares com um caráter de obrigatoriedade. Por puro constrangimento em não ter vontade de participar, talvez. É uma escolha minha que, entendo, pode ter repercussões nas relações da Letícia. A resposta que mais ouvi de educadores foi sobre a importância para a integração das famílias entre si e com as outras. Sei. E, também, um julgamento atrelado que famílias que não participam de tais eventos são desgarradas entre si e antipáticas, no mínimo. E pode ser só minha impressão, como todo o resto.
Acredito que vale refletir sobre as mudanças nas configurações familiares, de sociedade e de vida. Com todos os demais compromissos que assumo para viabilizar a vida que amo, que inclui minha família, falta possibilidade em mim para mais. Ocupar-me organizando o lanche coletivo, mesmo sendo esporadicamente, é também usar nosso tempo de estarmos juntas fazendo coisas que gostamos mais.
Escolhi a que considerei a melhor escola de porto alegre para a Letícia por inúmeros motivos. Desejo existir além da maternidade. Para estarem aqui comigo preciso que possam ouvir isso sem ser uma queixa. Não é.
A Letícia é das grandes maravilhas que me aconteceu. Encontrei competências e coragens não imaginadas. E uma galáxia de outras inabilidades e atribuições aprendidas (do script ‘ser mãe’) que não quero assumir. Não acho que seja necessário.
Não desejo, em nome da maternidade, me tornar o que detesto. Nem eu nem a Letícia precisamos da carga extra de frustrações adquiridas por tentarmos ser o que não somos.
E isso nada tem a ver com negligenciar necessidades da criança. É sabê-las e criar possibilidades de atendê-las da melhor forma possível para todos. Para todos!
Não na versão sacrifício. Tipo dano colateral por fazermos o que não gostaríamos de ter feito (ou do que se escolhe fazer sem a consciência que é pelo próprio desejo). Entendo esse dano colateral oriundo do apelo cultural colado em cada um, do desejo de reconhecimento e pertencimento ao grupo social. Isso é forte MESMO!
Acredito como uma possibilidade na gênese do sofrer não assumir quem somos. Incluindo o que é, aparentemente, imperceptível.
Quem reconhece aspectos apenas no outro precisa ajustar o foco. Deixar a preguiça de lado e olhar para si.
Só se reconhece o que, de alguma forma, já se conheceu. Mesmo que não se tenha consciência.
Afinal, há uma infinidade de coisas que existem antes de saber-se delas. Inclusive independentemente de nossa existência.
Fernanda Seelig

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