E levanto.
Para dar um exemplo perfumado:
O creme que passo nas pernas é feito de uvas, agora que não estou tão café com leite, ao menos a pele tem algo de fresco.
“Somos o que somos porque nos alteramos. Saímos do barro em busca da felicidade.”
Há 16 dias, caí.
Das coisas que não estavam no caminho, todas foram pro lugar. E ali, na hora, pensei: ah, agora que me aconteceu isso, nada mais vai me acontecer. Estou garantida para os próximos meses ou quem sabe todo o 2012. Foi assim: eu vinha do terraço, tarde de domingo. A cabeça fervendo, cortar os cabelos, comprar colcha nova, marcar manicure, pedicure, não faltar a ginástica, mas, não. Não era só isso. Eu pensava, admito, no meu coraçãozinho. E larguei a descer as escadas. Não deu três degraus, eu estava no chão, e minha perna esquerda toda dobrada pra trás em forma de C – coxa, panturrilha, pé. É. São as tramas do destino. Uma força superior me empurrou, ou este chão está melado? Isso me perguntei, eu, míope desde os 5 anos de idade. A luz da escada estava apagada. Era dia, mas ainda assim, os degraus se confundem para quem vem do clarão de um sol num terraço.
Enfim, me estatelei, o tornozelo começou a falar alto, tão alto, chamava a plenos pulmões alô, alô, alô! Pois foi o maléolo, disse o doutor, na emergência. O maléolo, ah. Agora é só botar uma tala. OK. Que lindo, agora vou poder ler todos os livros que eu quero. Olha, faz duas semanas, até agora não li nenhum. Porque eu só penso no pé. Só sinto o peso do gesso do pé. Só tenho olhos para os dedos do meu pé, que fico mexendo para ver se não gangrenaram. E quando dói do lado errado, eu levo um susto. É claro que o andador, a cadeira de rodas, os queridos amigos fazem tudo ficar menos difícil. Mas a vida básica vira o troço mais importante. Que dias vou tomar banho de chuveiro? E se escorrego?
E dá-lhe remover os tapetes do caminho. O microondas, já esqueci, não alcanço.
Uauauaaua.
Já estou craque em pegar táxi de cadeira de rodas. Mentira. Cada vez que faço isso volto pra casa exausta. E quando canso de todos os aparatos, me atiro no chão e me arrasto sentada.
Então, visito o Julio:
“(…)pero nosotros tía ¿cómo haremos?
¿cómo nos daremos cuenta de que hemos recaído
si por la mañana estamos tan bien
tan café con leche
y no podemos medir hasta donde hemos recaído en el sueño
o en la ducha
y si sospechamos lo recayente de nuestro estado
¿cómo nos rehabilitaremos?(…)”
Julio Cortázar in Me caigo y me levanto
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Eliana Guedes
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