Encontrou semelhantes. Acostumados, ou por outra, familiarizados com a dor, que não é de ninguém, dor não tem dono. Assim mesmo, é a gente que faz, então isso por si, revolta. Por que ser uma pessoa a quem ninguém pode ajudar? Não parece bom negócio... A conversa no auditório começava, e a palestrante pediu: caminhem! Andem pela sala! Entre as cadeiras! Mexam-se! Lembrou da campanha do “Mexa-se”, muito em voga nos anos 70, quando um amigo mui querido que adorava uma ceva e seu carro Puma último modelo, brincava: essa campanha do “mexase”... parece nome de remédio.
É chato, de um modo geral, ficar sentado assistindo palestras. Pessoalmente, achava um tédio, embora achasse legal também ver alguém dizendo coisas que de alguma forma falavam dele.
Mas foi mais legal ainda saber que a palestrante não queria palestrar, assim, como doutora. Ela, psiquiatra, até brincou, enquanto a plateia caminhava entre as fileiras de poltronas do anfiteatro: “A gente pensa que psiquiatra tem a chave, eu sei. A chave do quartinho!”
Nossa, ela falava e a conversa infiltrava na cabeça. Mexer o corpo devolve o centro do corpo e da cabeça, quantas vezes havia pensado nisso, nos momentos em que a doença tomava conta e precisava ficar na cama, quieto, esperando os efeitos. Ou esperando demais, tomando o sofrimento para si, o sofrimento do mundo.
Na brincadeira do mexa-se, o mal-estar diluía, quando um pegava a mão do outro, na poltrona ao lado, aumentava o sentimento de bem-estar, aí o riso vinha fácil. Aquilo não era uma palestra, era o encontro das vontades, e dos pareceres, cada um com o seu diagnóstico escondidinho, porque ser a pessoa era o mais importante, ser mais que um resultado de exame, ser além, e ir para além da rebentação, nas ondas bravas de um mar.
Depois do primeiro instante, já estavam entre amigos. Ou, pelo menos, corria de uma para outra pessoa a liberdade de ouvir e balançar a cabeça positivamente, enquanto a conversa da médica, entre eles, fluía. E foi no momento em que disse, ela, ou alguém, uma voz que se levantou mais do que as outras: a responsabilidade da alegria começa nisso.
E aí, ele compreendeu, balançando vagarosamente a cabeça, que a sua responsabilidade de ser, e ter uma, sei lá, mil dores, e de ter a vontade, ainda assim, de aceitar o convite, não apenas como um papel escrito, mas aceitar, de dentro, o convite para algo que não sabia como seria (porque nunca sabemos como será qualquer acontecimento, essa responsabilidade fazia, dele, o dono de sua vida.
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Eliana Guedes
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