Fabrício Carpinejar
Arte de Edward Hopper
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Arte de Edward Hopper
"Fabrício!
Eu leio sempre, muito, você, e nos últimos dias tenho me apegado a alguns textos em especifico para tentar entender o que está se passando na minha vida.
Estou passando por um processo de separação (se é que isso é um processo pelo qual se passa, porque as vezes acho que sou eu quem tem dado muita importância, e já passou, e eu não vi). Fomos casados durante três anos, e namoramos, antes disso, por mais uns três. São quase seis anos juntos, dos quais no alto dos meus vinte e cinco anos, me senti casada, perfeitamente feliz, e capaz de superar qualquer crise emocional que tivesse a ver com o relacionamento pelo simples fato de amar com simplicidade e certeza quem estava do meu lado.
Toda simplicidade e certeza que me sobravam parece que faltava do outro lado, apesar de todo o espaço, dedicação, melindres, carinhos infinitos e doação integral transbordando de ternura. Na noite do último do ano, ele terminou comigo. O engraçado é que quis continuar em casa por mais alguns meses. Ele me criticava, usava os defeitos que tenho para justificar os fins, aqueles mesmos defeitos que tantas vezes nos fizeram selar a paz mais maravilhosa e cheia de alívio que já vi na vida. Aqueles mesmos defeitos que, vez por outra, eram até dignos de risos. Ele me acusa de coisas que não fiz, mas continuou morando comigo - porque quis, nunca implorei ou me humilhei para que ficasse.
Feliz ou infelizmente, eu lhe disse que ainda iria esperar, afinal de contas não estou mesmo aberta a conhecer novas pessoas, promover uma mudança apressada e repleta de uma falsa transitoriedade na minha vida. Não sou assim. Dedico tempo e espaço para as coisas que acho que valem, e insisto muito, até demais, naquilo que quero, e desejo profundamente com sinceridade. A questão é que mesmo sendo muito romântica, sempre fui forte, soube me virar sozinha e sou de escutar os nãos que a vida me impôs. Dessa vez não estou conseguindo. Bem ou mal, não estou acreditando que acabou (será que é blefe?), não consigo entender o comportamentos dele, inclusive o fato de ter deixado quase todos os pertences em casa, e mesmo assim dizer que agora o lugar dele é em outro lugar.
O que eu deveria fazer? Não consigo me desligar.
beijo
Raíssa"
Querida Raíssa
Não está acreditando por isso não acabou. Finge que mantendo as aparências os estilhaços se juntam. O espelho é um quebra-cabeça irrecuperável.
Não deixaria o purgatório liquidar com o que resta de memória feliz dos dois. Ele não deseja ter prejuízo, além de tudo é avarento, busca ser solteiro com a estrutura de casado.
Terminar o relacionamento no réveillon é ato de sangue-frio, premeditado. Ele ensaiou o fim, sabia do fim há muito tempo. Porque o costume é romper em dia quebrado, no meio de uma discussão, no susto, sem querer.
Prosseguir não é convivência, mas tortura. Cada manhã vai procurar uma nova noite, uma mudança de atitude, olhá-lo tensa e aflita, esperando frases redentoras e o pagamento retroativo do perdão.
Eu não gostaria de viver desse jeito, desfalcado de futuro. Esperança sem porta e janela é angústia. Já tentou de tudo, agora que ele assuma sua escolha. Da parte dele, que não fique jogando com o charme da carência. Da sua parte, que não aceite fim parcelado, o ódio não tem promoção.
Não alcanço o que pretende permitindo que ele permaneça de corpo na casa estando mentalmente em outro lugar. Quer enlouquecer? Renunciar a espontaneidade, a altivez, o brilho da boca? Ele pensará que pode desfrutar de todos os direitos sem prestar nenhum dever.
O que faria? Colocaria as coisas dele no corredor e trocaria a fechadura. Ele não serve nem para arrumar outra residência. Escorado, gigolô de sofá! Desculpe minha agressividade. É pela contundência que podemos conservar a pureza.
O que é necessário compreender que a história da relação dele não é a mesma de você. Juramos que o marido ou a esposa está na nossa cabeça e enxerga tudo igual, com a mesma edição amorosa das cenas mais importantes. Talvez ele nem saiba qual a sua música predileta, seu prato favorito. Não, ele viveu com você, não viveu em você. É você que ria dos defeitos, que se deslumbrava com a simplicidade, que se despedia das brigas estendendo a toalha da mesa. Não ele.
Um pouco de narcisismo lhe fará bem. Se continuar assim, não terá mais amor próprio para continuar a amá-lo.
Abraço
Fabro
Fabrício Carpinejar
Informações sobre Consultório Poético
Acesse o blog do autor: http://carpinejar.blogspot.com/


1 comentários:
Perfeito, perfeito, perfeito! Tomara que nossa amiga desperte. Problema de mais valia dá nisso!
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